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CRÍTICA: O AGENTE SECRETO: O cinema que existe mesmo quando não existe.

  • Foto do escritor: João Paulo
    João Paulo
  • 24 de set.
  • 5 min de leitura
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Há quase cem anos atrás, no dia 14 de julho de 1932, mais de cinco mil pessoas se juntavam na Praça Sete, aqui em Belo Horizonte, Minas Gerais, para a inauguração do maior cinema do país na época - O Cine Theatro Brasil. A ainda jovem capital mineira ganhava um espaço pioneiro e revolucionário tornando-se referência nacional em estilo Art Déco. Com a chegada dos filmes hollywoodianos, o cinema se tornava mais do que um lugar que contava histórias, apresentava personagens e celebridades, mas também um lugar de socialização. Um espaço que impactava a vida das pessoas, mas era igualmente impactado por elas. 


Ontem, 23 de setembro de 2025, me vi reunido nesse mesmo espaço com outras mil pessoas para acompanhar a abertura da 19ª edição da CINEBH INTERNATIONAL FILM FESTIVAL, mas também para assistir a estreia do filme O Agente Secreto dirigido por Kleber Mendonça Filho. Uma experiência que me obrigou a olhar além da tela. Um momento que levou meu olhar para aquele espaço e além dele. Foi quando me sentei na poltrona que percebi o quão especial e única seria aquela oportunidade. Nos dias de hoje quando em nossas vidas temos a chance de ver um filme num cinema histórico que impactou a vida de gerações e milhares de pessoas? Ver um filme com outras milhares de pessoas? É a oportunidade perfeita para mergulhar e entender o que é O Agente Secreto. 


Kleber Mendonça faz o que todo bom cineasta faz de melhor. Fala sobre o que conhece, sobre o que entende, sobre o que vive, onde vive e o que já viveu. Valoriza sua cidade, seu estado e seu país. Escreve e dirige como quem conta uma história num domingo à tarde. Histórias carregadas de familiaridade, identidade e brasilidade. Kleber faz parecer fácil o que na verdade é desafiador: encontrar beleza no ordinário, no cotidiano, no familiar. Encontrar beleza nas pequenas e grandes coisas. No previsível e no imprevisível. No encantamento e no desencantamento. Na ficção e no real. 


Kleber introduz personagens com uma naturalidade saborosíssima. Uma verdadeira teia. Somos parte daquele todo. Como em Twin Peaks de David Lynch, rapidamente nos identificamos e sentimos que pertencemos. Nada é desperdiçado. Até o que parece não avançar a narrativa em nenhuma direção, tem um propósito. Construir uma atmosfera rica, numerosa e envolvente. Nos transportar para aquela realidade. 


Caminhamos pelas ruas, pelos prédios, pelos carnavais e pelo cinema. O cinema na filmografia de Kleber não é só um lugar. É um personagem vivo e pulsante. Toda a história circunda o cinema. Acontece dentro e fora dele, antes e depois dele. O cinema é memória, os filmes são memória e as pessoas são memória. Estão conosco mesmo quando não estão. Em O Agente Secreto, voltamos à época que filmes como A Profecia e Tubarão estavam em cartaz. Vemos de perto como as pessoas eram influenciadas por eles. 


Dessa forma, Kleber escolhe contar mais uma de suas memórias/histórias. O Agente Secreto. Ambientado em 1977 durante “tempos de pirraça”, Armando, interpretado por Wagner Moura, vive com outra identidade, Marcelo, fugindo da perseguição e do caos que o assombra. Seu objetivo é sair do Brasil com seu filho o mais rápido possível. No meio tempo, se refugia em Recife. Não demora até esse mesmo caos retornar em plena semana de carnaval. 


O Agente Secreto é um filme travessia. Assim como as próprias memórias, como o próprio tempo, a história ultrapassa as barreiras de passado, presente e futuro. Tudo parece estar acontecendo ao mesmo tempo. É muito inteligente como, de maneira sutil, tanto na narrativa quanto na própria forma do filme, tudo volta pra isso. A dissecação e manipulação do tempo e do espaço. Como os influenciamos e como somos influenciados por eles. O filme é um resultado óbvio de toda a filmografia de Kleber Mendonça até hoje. Retratos Fantasmas encontra a ficção. A cidade vive e respira como em Bacurau e O Som Ao Redor. É um filme travessia não só pelo o que ele é, mas também pelo o que representa no momento em que é lançado. Um mundo e um tempo cada vez mais conectado e desconectado. 


O amor de Kleber por Recife me lembra do meu amor por Belo Horizonte. Um amor que muda o olhar, molda o olhar e nos convida a viver e valorizar nossos espaços, nossas raízes e nossa história. Não um amor idealista, mas um amor maduro o suficiente para encontrar o belo e o valor das coisas mesmo quando tudo aponta para o contrário. Mesmo em tempos de pirraça. Encontramos consolo na companhia do outro e moradia nos espaços que nos acolhem. A forma como ele filma é tão identificável. Mesmo para nós que não moramos no Recife. Não é sobre o lugar, é sobre uma sensação comum a todos nós. Pertencimento.  


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O Agente Secreto é uma memória de um tempo que já foi, mas ainda é. Esse é o paradoxo que nos persegue sempre. Tudo parece mudar o tempo todo, mas nada realmente muda. O filme reflete um momento em que o Brasil era assombrado pela ditadura militar, mas não o faz somente com os olhos voltados para o passado, mas principalmente para o presente. Um tempo ameaçado constantemente pelo avanço da extrema-direita e do autoritarismo. O fantasma da ditadura sempre esteve próximo. Nunca nos deixou completamente. Não é apenas um filme sobre 1977, mas sobre o Brasil que nunca deixou de ser 1977.


É com esse conhecimento, essa maturidade e esse pé no chão que Wagner Moura constrói seu personagem. Sua performance é controlada, minuciosa, mas reverberante. Está fugindo, transitando entre espaços, entre tempos, mas nunca deixando de pertencer. Armando é um refugiado, mas rapidamente encontra amparo no meio do caos. É jurado de morte, mas dança carnaval. Todos os outros personagens, com poucos ou muitos minutos de tela, brilham da sua própria maneira. 


Outra característica de O Agente Secreto é que o filme não se restringe apenas ao drama e ao thriller como também é um suspense político e uma tragicomédia. Kleber Mendonça sempre transita entre gêneros nos seus filmes. Ao mesmo tempo que é possível escutar a sala de cinema inteira gargalhando, também sentimos a tensão iminente crescendo no ar. Como uma corda no pescoço cada vez mais apertada com breves momentos de respiro.


Assistir O Agente Secreto no Cine Theatro Brasil não apenas engrandeceu essa que por si só é uma experiência maravilhosa, como foi a oportunidade única e concreta para mergulhar e entender exatamente sobre o que o filme se trata e representa. Independente do tempo, se reunir numa sala escura para assistir uma história/memória, é mágico. É verdadeiramente se reencontrar consigo mesmo e com o outro. É voltar e avançar no tempo, é viver o presente, o passado e o futuro. Tudo junto.


A vida continua dentro e fora dos cinemas. A vida continua dentro e fora dos filmes. O cinema continua existindo mesmo quando não existe mais. Os filmes continuam vivos nas nossas memórias, são personagens nas nossas próprias histórias, mesmo com o passar das décadas, com o passar da história. 


Entre tempos de pirraça, ditaduras e jovens democracias, o cinema persiste e resiste. Não apenas existe como um espaço físico, material, mas também imaterial. Atemporal. Um lugar onde é, onde já foi e onde será. Um espaço que nos abocanha, nos consome, e a cada história, a cada pessoa, a cada tempo, se reinventa, se transforma. 


Mesmo quando não existe, não deixa de existir. Como quando perdemos alguém para a morte ou perdemos alguém em vida, esse alguém continua a nos assombrar e nos encantar nas nossas memórias. Como verdadeiros fantasmas, nos lembram de um tempo que já foi e não voltará. Como verdadeiros mensageiros, nos lembram de um tempo que está por vir. Com medo, receio e esperança, só nos resta abraçá-lo.


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