CRÍTICA: NINFOMANÍACA: O desespero humano por sentido.
- João Paulo
- 30 de ago.
- 5 min de leitura

Já era quase meia-noite enquanto eu procurava algo para assistir numa sexta-feira à noite. Depois de alguns minutos, decidi que iria revisitar Ninfomaníaca do Lars von Trier. Por que não, não é mesmo? Rio comigo mesmo. Só que dessa vez me propus o desafio de assistir de uma só vez a versão de cinco horas e quarenta minutos. Eu sabia que essa decisão iria me imergir ainda mais na narrativa. Me vi naquele quarto junto com os dois personagens madrugada adentro fazendo cada vez mais parte daquela história. Não de maneira passiva, mas ativa já que nós, como espectadores, somos confrontados constantemente com a razão e o sentido de tudo aquilo. Como a própria personagem Joe diz em uma das cenas, me pergunto: O que me faz bem? Acreditar ou não nessa história?
Meu primeiro contato com o filme foi na adolescência por pura curiosidade, pelo choque. Desde sempre procurando explorar meus limites. Sempre interessado pela violência na tela, pelo sexo e pela maneira crua e inconsequente que Ninfomaníaca conta sua história. Eu tinha apenas quinze anos, mas já tinha discernimento o suficiente para entender que aquilo estava longe de ser pornografia. Por mais que ainda me faltassem palavras para elaborar o que eu estava assistindo, eu entendia que, independente de tudo, sexo não era o cerne. Agora mais maduro, enxergo e entendo um outro filme além do explícito. Enxergo uma história sobre solidão, desejo, pertencimento e busca de sentido. Desesperada para ser contada, desesperada para ser ouvida.
De uma tela escura, apenas escutando sons de chuva e gotas d’água batendo em superfícies metálicas, o filme começa num beco escuro. Joe está caída no chão, machucada, abandonada. Seligman, um homem que passava ali naquele momento, escolhe ajudá-la dando um lugar para se deitar e descansar. Rapidamente e naturalmente os dois começam a conversar e, a partir de elementos (uma isca, uma fita de música, um quadro religioso, uma mancha na parede, etc) no quarto de Seligman, Joe conta com detalhes sua história dividida em capítulos. Fala sobre sua infância, primeiras experiências sexuais, sua relação com seu pai e as centenas de homens que cruzaram seu caminho.

Da mesma maneira que Seligman, nós escutamos e assistimos o desenrolar não apenas como espectadores, não apenas de maneira passiva, mas racionalizando o que vemos. Formamos um verdadeiro contraste com Joe. Ela é essência, impulso, desejo, corpo. Nós somos razão e moral. Joe não apenas tenta ser compreendida por Seligman, como por nós também. Sempre que vamos assistir algum filme, devemos nos lembrar que o vemos através dos nossos olhos, da nossa própria perspectiva. Tudo que já vivemos, tudo que carregamos como bagagem, nos forma como pessoas e molda a maneira como enxergamos e pensamos o mundo. Desse modo, como nos desvencilhar disso tudo e nos abrirmos, de verdade, para outro ser humano? Até onde aceitamos olhar para a dor, o prazer e a contradição de outra pessoa sem querer moralizar?
É fácil demais se deixar distrair, se impressionar, pelo resto. O sexo é essencial na narrativa e a maneira como Lars escolhe abordar o sexo, enxergar o sexo, é primordial. Não há pudor. Não há escrúpulos. O que assistimos é um filme que não hesita, que teme, mas ainda assim não deixa de encarar, tocar e adentrar. O sexo é a principal, mas ainda é apenas uma das maneiras de entendermos quem é Joe. É a maneira que ela encontra de se entender. Como ela, nós subestimamos demais nossa sexualidade e o papel que ela tem sobre nós.
Joe enfrentou durante toda a sua vida o sentimento de vazio e solidão. Sempre sentiu que havia algo errado, defeituoso, pecaminoso em ser quem era. Através do sexo, encontrou uma forma de poder. De maneira extremamente agressiva e invasiva, mas encontrou. Ela dizia que era diferente de um vício, de uma necessidade. Era um desejo. Joe dizia que seu único pecado era querer mais do pôr-do-sol. Querer mais da vida. Não surpreende ela buscar tanto o sexo pelo sexo e fugir do amor.
“O amor distorce as coisas. Ou pior ainda... o amor é algo que você nunca pediu. O erótico era algo que eu pedia, ou até mesmo exigia dos homens. Mas esse amor idiota... me senti humilhada por ele, e por toda a desonestidade que se segue. O erótico é sobre dizer sim. O amor apela aos instintos mais baixos, envoltos em mentiras. Como dizer "sim" quando se quer dizer "não" e vice-versa? Tenho vergonha do que me tornei. Mas estava além do meu controle.”

Charlotte Gainsbourg e Stacy Martin que interpretam Joe conseguem alcançar e transmitir todas as nuances dessa personagem tão complexa. Experimentamos suas ingenuidades, inseguranças, seus receios e medos. Experimentamos seus amores, seus prazeres e transgressões. Experimentamos seu ódio, seu desespero e sua solidão. Através dos seus olhos, através das hesitações e desejos da personagem, ambas revelam mais de Joe do que qualquer nudez.
Definitivamente não é um filme para todos os públicos. Não somente por sua duração, por seus longos diálogos, pela nudez ou violência, mas também por um humor especialmente característico e único do diretor. Eu adoro como Lars cria esse espaço tão livre de moral e julgamento que diversas vezes você se vê chocado, atingido por certas cenas, e logo em seguida se vê rindo de constrangimento da nossa própria ignorância. Rindo por reconhecermos no outro aquilo que em nós também é patético.
Lars von Trier coloca muito de si em seus filmes explorando, cavando e contorcendo as piores e as melhores características de si. Sinto que em Ninfomaníaca muitas de suas próprias visões são expostas através dos diálogos. Temas sensíveis como o aborto, o amor, o sexo, a liberdade de expressão e tantos outros exemplos revelam como o diretor pensa e enxerga o mundo. Ainda que não sejam opiniões definitivas. Há contradições, há debates. Seus filmes são sua própria panela, seu espaço aberto, sua arte amoral, para explorar tudo que ele teme.
Ninfomaníaca, como os outros filmes do diretor, também vai além do convencional e usa sempre a montagem como forma de engrandecer e ressaltar momentos importantes. O filme experimenta e brinca o tempo todo de maneira muito dinâmica. Através do formato da imagem, através das cores ou falta delas e de cenas que desafiam o espectador. Como outras obras de Lars, também abraça o surrealismo e o paranormal.
As horas foram passando e cada vez mais o nascer do sol se aproximava. Tanto no filme como fora do quarto onde eu estava. Rever Ninfomaníaca dessa maneira mudou minha percepção me permitindo sentir na pele a duração, o tempo. O que poderia ser exaustivo para mim foi catártico. Quando amanheceu e o filme terminou me vi acordando de um pesadelo que revela mais de nós do que gostaríamos.
A busca por sentido e por pertencimento é extremamente dolorosa e muitas vezes destrutiva. Vamos errando, tentando e errando tentando encontrar nosso lugar no mundo, nosso lugar em nós. Ninfomaníaca é um filme cruel. Um filme pessimista e desesperançoso que, mais uma vez, nos desafia e nos faz questionar o que vemos e escutamos. Às vezes é demais para nós. Sejam as coincidências, sejam as perversidades, queremos ser otimistas e pensar que as coisas não são assim.
Não sou mais adolescente. Tenho vinte e sete anos. Ainda não tenho certeza no que escolho acreditar. Talvez seja nessa tensão, nesse não saber, que mora o cerne de Ninfomaníaca. No fim, não importa se a história de Joe é verídica ou não. O que importa é que, ao escutá-la, me reconheço naquilo que ela revela: o desespero humano por sentido. Mesmo que ele nunca venha.





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