CRÍTICA: Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo: Nada importa e tudo importa.
- João Paulo
- 21 de ago.
- 6 min de leitura

Depois que Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo ganhou o Oscar de Melhor Filme em 2023 e toda a repercussão positiva e negativa que se seguiu, venho pensando em revisitar o filme e escrever sobre ele. É a quarta vez que assisto, sendo a penúltima em 2022, três anos atrás. Três anos que se passaram e a sensação que eu tenho é de que muita coisa mudou na minha vida, muita mesmo, mas ao mesmo tempo nada mudou. Em 2022 eu enfrentava problemas financeiros e familiares que enfrento ainda hoje. Eu estava em um relacionamento que não estou mais. Eu conheci tantas pessoas, conheci tanto de mim, fui para tantos lugares e, ainda assim, sinto que não saí do lugar. Sinto que, apesar de hoje conhecer mais de mim do que jamais conheci antes, eu ainda continuo mergulhado na minha própria rosquinha.
Quando assisti o filme pela primeira vez, foi uma experiência incrível. A melhor do ano. Defendi com unhas e dentes durante a temporada de premiações. Não suportava e ainda não suporto a maneira como algumas pessoas escolhem falar sobre filmes nessa época do ano. Defendi porque, apesar de todas as discussões acaloradas, era uma história que me tocou e ainda me toca. Um filme que explode criatividade, abraça o ridículo e transpira inspiração. Por baixo de todo o caos na forma, de tudo que se referiram como “um fracasso estético do capitalismo”, “um feed infinito” ou algo como “filme TikTok”, Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo usa toda essa roupagem para contar uma história de mãe e filha.
É curioso como criticaram tanto todo o excesso que circunda o filme quando tudo que nos envolve, em todos os lugares, todo o tempo, todos os dias, é o excesso. Mesmo quando estamos sozinhos em nossos quartos. Mesmo distantes uns dos outros, dos nossos celulares e computadores. Somos excesso. Eu sou excesso. Não lembro de um tempo que eu não tenha sido excesso. Não existem momentos de descanso e silêncio dentro da minha cabeça. Por isso tento abafar o barulho e o excesso com coisas ainda mais barulhentas, mais excessivas. Tudo isso para encontrar qualquer resquício de sensação que eu tenho controle sobre as coisas. O filme não só reflete essa que é uma característica tão marcante dessa geração, como é um reflexo do próprio ser humano independente de momento, lugar, tempo. Quando questionamos e somos confrontados com nossa existência, nossa insignificância, o simples fato de existir se torna um peso difícil de carregar, de entender, de suportar.

Não concordo com as afirmações de que o filme apresenta uma visão superficial e barata sobre niilismo. Claro, é um assunto inesgotável. Poderíamos ir ainda mais fundo, elaborar de maneira mais crua, mais séria, mas dessa forma o filme perde a sua própria identidade, sua personalidade. A mesma coisa que faz de Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo tão especial, é também o que o limita de satisfazer essas que talvez são vontades mais pessoais de algumas pessoas do que qualquer outra coisa. O que torna o filme tão único e tão fácil de agradar é a maneira como dança entre a comédia, o cafona e o humano. Talvez a única coisa que realmente envelheça mal, se envelhecer, é o humor característico do filme. Digo isso porque, mais uma vez, além de todos os pênis de borracha, os dedos de salsicha e os troféus em formato de plug anal, existe uma história tão cativante, com personagens tão calorosos, que perto disso tudo todo o resto é apenas confete.
De forma alguma desmerecendo os confetes! O universo que constrói a experiência do filme, que guia a narrativa para onde ela deve chegar, é igualmente único e inconsequente. Os Daniels, diretores do filme, têm como característica esse humor escrachado e a maneira como costuram tudo isso em uma coisa só é realmente espantoso! Não me surpreende ser “demais” para várias pessoas. Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo é um banquete de referências a grandes filmes do cinema como Matrix, 2001, Ratatouille, In the Mood for Love e tantas outras influências. Ainda assim, bebendo de tantos lugares, homenageando tantas obras, movimentos do cinema, pessoas, mesmo nesse caos, o filme consegue construir e entregar sua própria identidade e isso é lindo.
Evelyn Wang (Michelle Yeoh) é uma mãe mergulhada no próprio caos. Entupida de dívidas e impostos por conta de sua lavanderia, sempre esperando aprovação de seu pai, sem espaço na sua cabeça para seu marido, Waymond (Ke Huy Quan), e sem conseguir enxergar sua filha, Joy (Stephanie Hsu), como alguém além de suas próprias expectativas, inseguranças e necessidades. Ameaçada com a possibilidade de perder tudo e todos, um novo caos se instaura e surge a oportunidade de reverter tudo isso. Engraçado como enfrentar um vilão em universos paralelos parece muito mais fácil do que encarar um cenário como esse na vida real. Ainda bem pelos filmes. Ainda bem pela nossa ingenuidade, ou melhor, nossa habilidade de, apesar de tudo, acreditar ou querer acreditar que algo vai acontecer, alguém vai aparecer, para nos salvar de nós mesmos.

Através desse universo absurdo, Evelyn confronta sua própria realidade e se entende como verdadeira protagonista de suas decisões, da sua vida. Dessa forma ela encontra a oportunidade de se reconectar não apenas com as pessoas ao seu redor, mas com ela mesma. Entendendo que, sim, nada realmente importa, mas é através do vazio, do nada, do deserto, que se faz espaço para criar, para ser. Apenas encarar o vazio da existência é um beco sem saída. Devemos fazer mais do que isso, ser mais do que isso. É a partir desse medo, desse conflito, que Evelyn consegue, finalmente, entender Joy.
Eu vivo na pele uma relação profundamente conturbada com minha mãe. Conturbada é pouco. É uma relação dolorosa. Assistindo Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo me vejo sentindo aquele mesmo sabor amargo dos filmes de super-herói. Vejo uma história otimista, com final feliz, mas não vejo a minha realidade ali. Acredito que eu e minha mãe mergulhamos em nossas rosquinhas há muito tempo. Tenho batalhado com a minha todos os dias. Feito o possível e o impossível para existir além dela. Por outro lado, não acho que haja um retorno disso. Não vejo um cenário que essa rosquinha, como o filme escolhe representar o peso de tudo, não esteja presente o tempo todo. É mais sobre aprender a conviver com ela, entender seu propósito e não sucumbir.
Talvez minha mãe nem reconheça sua própria rosquinha. Afinal, reconhecê-la, encarar o espelho, é o primeiro e doloroso passo. Sinto que ela ainda está perdida no próprio caos, na própria cabeça, no olho do furacão, sem conseguir enxergar por outro ângulo. Estive nesse lugar por tantos anos. Ainda estou de certa forma, mas hoje eu consigo enxergar as coisas como elas são, consigo nomeá-las e por isso também sou perseguido dentro de casa. Ainda assim, eu não trocaria isso por nada. O que é melhor? Viver na própria ignorância ou conhecer o sofrimento, a angústia, o vazio e a partir desse conhecimento encontrar a oportunidade de existir além disso?
Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo entende como esse processo, apesar de presente em todos nós e coletivo de várias formas, é imensuravelmente individual. Apenas Evelyn tem o que é necessário para mudar sua própria vida. Parece simples, rápido, ingênuo, mas ainda é um convite, uma forma de pensar as coisas. O filme não só entende esse processo como reconhece o peso e o alívio que é passar por ele. Dessa forma seguimos. Todos os dias.

Michelle Yeoh transmite muito bem através de sua atuação o conflito que sufoca sua personagem. Através dos olhos, da fala, do corpo, ela transita de alguém aquém para protagonista da própria história. Ke Huy Quan e Stephanie Hsu estão igualmente espetaculares. Um trabalho que não existiria não fosse a escrita e direção dos Daniels. Um filme feito por pessoas que amam cinema. Feito por pessoas que acreditam e se divertem com o que fazem.
Dito tudo isso, podemos dizer que Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo tem envelhecido bem? Acredito que sim. Passaram-se apenas três anos, mas o filme continua tão original como naquela época. Original pelos motivos que escapam aos olhos. Num momento onde universos paralelos faziam enorme sucesso nas telonas, os Daniels pegam essa ideia e encaixam no contexto de uma família imigrante nos Estados Unidos, no contexto de uma mãe, simplesmente lutando para sobreviver mais um dia sem perder a cabeça. Os universos paralelos como forma de colocar na tela o conflito que é imaginar, idealizar, qualquer vida, qualquer outra possibilidade, que não a nossa própria.
Minha vida não mudou tanto de 2022 pra cá, mas eu venho mudando todos os dias e o poder para mudar minha vida continuará estando nas minhas mãos, queira eu ou não. Imaginar, idealizar, sonhar com qualquer outra vida que não a que eu tenho, é sofrer gratuitamente. Enquanto continuarmos sendo vítimas das nossas próprias vidas, nada mudará. Resta fazermos o trabalho sujo e ousarmos desejarmos algo melhor para nós. Algo melhor do que isso. Talvez assim superamos nossas próprias rosquinhas.





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