CRÍTICA: BRING HER BACK: Morrer em vida, viver na morte.
- João Paulo
- 3 de jul.
- 4 min de leitura
Atualizado: 3 de jul.

Muito se diz sobre a constância de temas como o luto no cinema de horror. Para alguns, um artifício muito comum, barato e superficial. Para outros, eu incluso, uma fonte inesgotável de inspiração. Afinal, qual outro assunto nos apavora mais, nos impressiona mais? Qual outro assunto consegue moldar e dar sentido às nossas vidas de uma forma incompreensível? A morte dos que vão, num primeiro momento, pode realmente parecer assustadora, misteriosa e dilacerante. Mas… e a morte dos que ficam? A morte ainda em vida. O buraco impreenchível que fica, o alívio que muitas vezes traz, a culpa, o ressentimento e o trauma. O que será que é mais difícil de encarar? Morrer definitivamente ou morrer em vida várias vezes?
Bring Her Back, dirigido pelos irmãos Danny e Michael Philippou, os mesmos do sucesso Talk to Me, de 2022, constrói, mais uma vez, uma narrativa em torno do luto e do trauma. De maneira consistente e progressiva, demonstram ter amadurecido e mergulhado ainda mais nessas temáticas tão sensíveis e comuns a todos nós. Com um estilo muito característico e desconcertante, contam histórias de horror que abraçam o absurdo, o gore e muitas vezes o ridículo, arrancando de nós reações de espanto, raiva, constrangimento e risadas. Como lembrado no livro “(mor.te) sf.: lembranças vivas do que fomos”, é necessário um nível natural de bom humor, o bastante para que a queda, quando vier, não arranhe o fundo de nossos corações.
O filme conta a história de um irmão e uma irmã que, ao serem confrontados com um acontecimento devastador, precisam encontrar em outro lugar um novo lar — pelo menos por enquanto. Apenas para descobrirem, mais tarde, que nesse novo lar terão que lidar, de maneiras extremas, com os mesmos obstáculos que os tiraram de casa pela primeira vez.
A narrativa se desenvolve a partir de elementos sobrenaturais para colocar na tela o que está somente nas entrelinhas. Em Bring Her Back, o horror como o vemos é apenas o meio, não o fim. Tenho dito isso bastante ultimamente e julgo essencial continuar reforçando essa ideia. É uma forma dilacerante de acessarmos o horror intrínseco em cada um dos personagens. Novamente: não é apenas uma história sobre luto, mas um retrato de várias perspectivas diferentes sobre esse mesmo assunto.
Acompanhamos a perspectiva da inocente, da filha. Do invisível, abusado e negligenciado, do filho. E do abusador, da mãe. Três relações distintas para o mesmo obstáculo. Piper é “protegida” dos horrores do mundo, Andy é confrontado com eles desde cedo, mas encontra formas de não encará-los. Pode-se dizer o mesmo de Laura, mas a forma como ela escolhe não enxergar, ainda que todas sejam destrutivas, abraça o caminho mais desumano. Por isso, o sobrenatural.

Sally Hawkins, que com frequência faz personagens calorosas e familiares, em Bring Her Back explora o extremo oposto. Em vários momentos, eu sentia que poderia atravessar a tela apenas para socar a cara dela até não sobrar nada. Impossível não se deixar levar pelo sentimento de fúria até experimentarmos também o outro lado dessa moeda. O lado do vazio e do desespero para preenchê-lo. Uma performance incrível que usa sua doçura inerente não para ajudar, mas para quebrar.
O cinema de horror, e o gore principalmente, opta por encarar essa realidade de frente e provocar o incômodo através daquilo que não suportamos, através dos limites que impomos para nós mesmos. É um gênero que lida com as coisas para as quais não suportamos olhar, ou assim achamos. Fomos ensinados que a morte é um tabu e algo a se temer. Estamos cercados por ela. Como diz a autora e jornalista Hayley Campbell: “O real e o imaginário se misturam, tornam-se ruído de fundo. A morte está em toda parte, mas é velada, ou é ficção. Assim como nos videogames, os corpos desaparecem.”
“Como você pode ter certeza de que é da morte que tem medo?”, diz uma passagem em Ruído Branco, de Don DeLillo. “A morte é uma coisa muito vaga. Ninguém sabe o que é, como é. Talvez você tenha apenas um problema pessoal que se manifesta como um problema universal.” Nessa citação, encontro talvez um dos cernes de Bring Her Back. Além da carne e do osso, além da vida e da morte, o quanto de nós colocamos nesse processo, tornando-o às vezes mais fácil ou ainda mais difícil?
No fim, morremos um pouco todos os dias. Vivemos um pouco todos os dias. Atravessamos essa vida nesse constante equilíbrio, ou melhor, nessa tensão. Se é mais fácil ou não morrer definitivamente, só saberei quando chegar o momento, mas sei que morrer em vida é igualmente infeccioso e maligno. Não há como superar a morte, de uma forma ou de outra. Por isso, tentamos encontrar a cada dia formas de conviver com ela sem nos destruirmos no processo.
Se tem algo que podemos aprender com Bring Her Back, é que ao experimentar a morte, nossa reação natural deveria ser o caminho oposto. Buscar a vida. Da forma que conseguirmos.





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