CRÍTICA: O TELEFONE PRETO 2: Filme de horror para crente assistir.
- João Paulo
- 27 de out.
- 6 min de leitura

O cinema de horror sempre me fascinou desde pequeno. Um gênero, um espaço, para dissecar, explorar e aprofundar temáticas que comumente tememos na sociedade. Mais do que outros gêneros, é um lugar aberto, amoral, como toda arte deveria ser, para expor as partes de nós que não gostamos de reconhecer, encarar. A criatividade, o absurdo e a vontade de ir além andam de mãos dadas. Mesmo quando criança eu era naturalmente atraído com a forma como meu corpo reagia a filmes do gênero. Apesar de amedrontador, encontrei no horror um lugar seguro que me proporcionava pertencimento e autoconhecimento. Seguro o suficiente para olhar partes de mim, partes de nós, que até hoje nos assombram sem realmente ter algum risco. O cinema serve como espaço físico para experienciar cenários extraordinários. Desconfortável, mas confortável o suficiente. Dessa forma me questiono: Será aí que mora a contradição no cinema de horror? Como, verdadeiramente, se sentir ameaçado, sentir risco, perigo, medo, sem verdadeira ameaça? Qual o tipo de filme que realmente desorienta o espectador? Por isso, quando digo que O Telefone Preto 2 é filme para crente assistir, em outras palavras, quero dizer também que é história de bicho papão para criança dormir.
No cinema de horror mainstream são frequentes as histórias que se aproveitam de todas as características do gênero para construir uma narrativa atraente o suficiente para no fim contar uma história conservadora que mais poda o potencial do ser humano do que incentiva a busca por amadurecimento. Tem todos os elementos de um horror, tem a cara, o cheiro, mas me arrisco a dizer que por mais que se denomine horror, não é. Definitivamente não é. Recentemente a franquia Invocação do Mal chegou ao fim e o sentimento que me surgiu e cresceu com o passar dos anos vem agora como um grito que eu já segurava há muito tempo no peito. Escrevo esse texto agora com uma revolta não somente por O Telefone Preto, mas por todo o cenário que nos encontramos e todos os filmes de horror que seguem a mesma linha de pensamento covarde. Filmes que ao invés de manterem a roda das ideias girando escolhem ativamente impedir esse processo. Escolhem parar ou pior, retroceder o girar da roda. Acredito que é algo que vale a pena olhar de perto e tentarmos entender o porquê dessas histórias serem feitas como são.
Estou falando de filmes de horror que não desafiam o espectador de forma alguma. Uma casa de horrores que não explora, não aprofunda, mas apenas busca o susto pelo susto. Criam uma experiência completamente simplista, didática e controlada. Covardes a tal ponto que não permitem ao espectador trilhar seu próprio caminho. Absurdamente instrutivo do começo ao fim mostrando, explicando e evidenciando na tela tudo que está acontecendo, tudo que virá a acontecer, sem permitir qualquer margem de chance para quem assiste ser desafiado e tirado de sua posição de conforto. São filmes que tentam construir uma atmosfera de perigo, ameaça e horror, mas que em nenhum momento oferecem qualquer verdadeiro risco. Por mais que o cinema seja sim um espaço seguro para experimentarmos coisas que não podemos no mundo real, ainda é fundamental que a arte seja corajosa o suficiente para cada vez mais superar, ultrapassar, seus próprios limites. Corajosa para nos tirar de nossas cadeiras, de nosso próprio eixo. No fim, toda experiência no cinema é, em algum nível, confortável, mas uma boa história faz o possível para tornar o espectador um indivíduo ativo.
Nesse cinema envergonhado nada é testado, desconstruído, muito pelo contrário, é reforçado. Eles não tentam mudar nada, mas reforçam um modo de pensar, uma maneira de ver o mundo, que é binária, em preto e branco. O mundo dividido entre bem e mal. Uma visão simplista do mundo herdada também do cristianismo. Acho assustador ainda assistir num gênero tão desenvolto como o horror histórias que bebem de “uma ditadura do bom” com um caráter punitivista, vingativo, ressentido e decadente. O mal e o bem como substâncias que não coexistem, a própria noção absurda de pecado e o bem sempre vencendo no final. A impressão que filmes como O Telefone Preto me passam é que o horror, a violência, só faz sentido se no final há uma mensagem do bem prevalecendo o mal. Como se o mal por si só fosse uma coisa absurda de existir, sem sentido, que não entra na cabeça das pessoas. Se é que existe o mal ou o bem como substâncias concretas. O terror, o sangue, a maldade, só “valem a pena” com uma moral no fim. Não há sensação de perigo porque sempre sabemos que o bem sempre vai vencer sobre o mal, que a luz sempre vai vencer sobre a escuridão, que Jesus Cristo sempre vai estar aqui para superar o demônio.

Por mais que esses filmes bebam da mesma fonte de clássicos do horror, no fim são experiências para quem tem essa visão de mundo simplória sentir e poder explorar o prazer que há no horror sem sentir “culpa” ou “vergonha”. Nós sentimos prazer e temos fascinação por esses filmes quer se queira admitir ou não. As mesmas pessoas que vão ao cinema assistir histórias como Invocação do Mal e O Telefone Preto provavelmente são as mesmas pessoas moralistas que na primeira oportunidade crucificam outros filmes como Terrifier pela violência explícita, indiscriminada e gratuita. Mesmo sendo um exemplo de violência pela violência, ainda assim é também um exemplo de obra que busca ir além, busca desafiar nossas próprias noções do que é violento demais, do que é aceitável e do que é considerado “moral”.
Me pergunto se estou sendo injusto no meu posicionamento, mas não consigo ignorar o que senti enquanto assistia O Telefone Preto 2. O filme é tão profundo quanto uma poça d’água com diálogos extremamente constrangedores. Um dos momentos que realmente me fez contorcer na cadeira do cinema foi um diálogo entre os personagens Gwen e Ernesto sobre como é “sexy” orar com Jesus antes de dormir. É possível encontrar algumas semelhanças com o ótimo filme A Nightmare on Elm Street 3: Dream Warriors, mas nada se sustenta por conta própria. Tudo que é feito aqui soa vazio e previsível. A atriz Madeleine McGraw no papel de Gwen é de longe uma das grandes qualidades do filme desde seu antecessor com uma performance tocante e intensa. Até mesmo o roteiro fraco não a impede de se destacar. A trilha sonora de Atticus Derrickson é também um dos pontos altos, construindo uma atmosfera cada vez mais ameaçadora e sufocante.
A domesticação do horror no cinema atual é um fenômeno que vem gradualmente adaptando, suavizando e/ou reinterpretando o gênero para se encaixar em formatos e sensibilidades mais amplas, acessíveis, seguras, ao público de hoje. Um horror que perdeu o risco e virou catequese moral. Um horror domesticado que posa de transgressor mas é moralista até o osso. Isso significa neutralizar o poder subversivo do gênero: o medo é estetizado e higienizado. O horror puro, grotesco, visceral e transgressor é marginalizado. Filmes mainstream são adaptados para o gosto global. O foco sempre está no retorno financeiro. Há pouco espaço para artistas se arriscarem e se expressarem sem amarras. Apesar desse momento, ainda há diretores e filmes que resistem. Filmes como Host, Terrifier, Speak No Evil e produções independentes de terror extremo que recuperam o horror como experiência-limite, desagradável e incontrolável. Esses são trabalhos que relembram que o verdadeiro horror não deve ser domesticado, mas deve ameaçar o conforto, inclusive o conforto estético e moral do espectador. Essa domesticação é mais um sintoma da cultura contemporânea. Queremos sentir medo, mas de forma segura, explicada e esteticamente aceitável. O gênero que antes explorava o abismo agora frequentemente o observa à distância com boa fotografia, metáforas bem elaboradas e trilhas sonoras calculadas.
Se antes eu via no horror um espaço confortável o suficiente para explorar as partes de mim que eu ainda não tinha coragem de explorar, hoje eu sei que o que eu quero, o que eu preciso, o que eu desejo, espero, é o contrário. Eu quero provar o desconforto. Quero ser tirado de mim, testado, contorcido, distorcido, esticado, tirado da minha cadeira, empurrado para longe e para dentro de mim. Quero assistir filmes que desafiam a minha forma de ver, entender e sentir o mundo. Quero conhecer meus limites, quero ultrapassá-los, quero descobrir novos. Quero me apaixonar cada vez mais por esse gênero que me acolheu como sou. Com todas as partes bonitas e reprováveis de mim. Como Lady Gaga canta em Bad Romance: Eu quero a sua feiura, eu quero a sua doença. Eu quero o seu drama, o toque da sua mão. Eu quero o seu horror. Eu quero tudo de você, desde que seja de graça.





Comentários