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CRÍTICA: HOST: Quando o Menos assusta Mais: uma Leitura de Host

  • Foto do escritor: João Paulo
    João Paulo
  • 25 de mai.
  • 3 min de leitura

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De uns meses pra cá, tem sido muito complicado encontrar inspiração dentro de mim para escrever. Sou coberto pelo sentimento de derrota, fracasso e desesperança. Não basta o caos que vivemos, o caos dentro de casa, o caos no coração, o caos na alma.


Às vezes, tudo o que precisamos é sentir. Sentir na pele, nos fios de cabelo, no peito e no corpo. Estar com quem nos faz bem, fazer coisas que nos lembrem de quem somos e do que queremos para nós.


Se voltarmos cinco anos atrás, vemos um mundo quase irreconhecível aos nossos olhos de hoje. A pandemia de COVID-19 e os anos de quarentena não só nos afastaram, como interromperam sonhos e as vidas de milhões de pessoas. Como encontrar essa faísca quando tudo parece sem sentido, sem propósito?


E não só durante uma pandemia mundial, mas todos os dias. A luta constante que é existir, suprir o vazio e a tentativa, muitas vezes frustrada, de sentir qualquer coisa.


Apenas com essa introdução, presumo que vocês jamais imaginariam que vou falar de um filme de terror de baixo orçamento, com apenas cinquenta minutos de duração. Host, dirigido por Rob Savage, acompanha um grupo de amigos que, durante a pandemia, através de uma chamada de Zoom, contrata uma médium para realizar uma sessão espírita. Não demora até as coisas darem errado e mergulharmos com eles nesse trem-fantasma pandêmico digital.


Tal como a duração de uma chamada grátis na plataforma, acompanhamos do começo ao fim esses cinquenta minutos assustadoramente divertidos, apavorantes e, verdadeiramente, estimulantes. É admirável como há tempo para construir uma atmosfera e apresentar os personagens de forma que nos identificamos e nos sentimos naquela reunião junto com eles. Host vai te deixar boquiaberto e agarrado ao sofá.



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Aqui, menos não é apenas mais. Menos é um banquete para a criatividade. Não só a história, mas a forma como tudo é realizado faz meus olhos brilharem. Mesmo com o mundo como estava, esse grupo de pessoas encontrou inspiração, força de vontade e vendeu uma ideia excelente.


Se ao menos permitíssemos que essa faísca fizesse morada. Que pegássemos nossas câmeras, canetas, pincéis e tentássemos trabalhar com o que temos.


Vi o filme pela primeira vez assim que saiu, em 2020. Tive uma das melhores experiências com um filme naquele ano. Fiquei com ele na cabeça todos esses anos, com medo de revisitá-lo e não sentir a mesma coisa.


Se eu assistir muitas vezes, provavelmente não sentirei. Mas essa segunda vez foi tão revigorante, inspiradora e aterrorizante. Eu senti medo, agarrei meus braços com força, fiquei de queixo caído, me assustei... E o mais importante: eu me diverti tanto!


A sensação de assistir Host é de realmente sentar num brinquedo de parque de diversões e curtir a viagem. Foi tão inteligente, considerando o contexto em que estávamos, o formato do filme. Os cinemas estavam fechados, amigos estavam separados... o que um grupo de jovens pode fazer?


O filme se aproveita disso de uma forma que me encanta até hoje. Host cria um cenário familiar, confortável e seguro, até começar a construir um suspense, uma tensão e uma sensação de perigo extremamente convincentes.


Temos muito a aprender a cada vez que revisitamos um filme. Parece simples, mas há muita coisa que influencia nossas experiências. O filme é sempre o mesmo mas nós não somos. E nunca seremos.


O tempo passa, a forma como enxergamos e pensamos muda, e isso reflete nos filmes que já foram lançados há muito tempo e irá refletir nos que ainda virão. Um clássico de ontem pode não ter a mesma força hoje. Um filme criticado pode receber novos olhares no futuro.


Um filme de horror de baixíssimo orçamento, no meio da pandemia de 2020, pode ser apenas mais um filme. Mas o que eu enxergo dele é o que realmente importa. O que enxergo, o que absorvo, o que desejo compartilhar dessa experiência.


Não são os filmes, não são as pessoas, não é o mundo que pode tomar esse movimento por nós. Somos nós que precisamos olhar para dentro, além da tela.


É daí que surge a faísca, o impulso, a vontade de sentir e compartilhar isso com quem amamos.


Na pandemia, eu tive alguém por perto que ajudou muito para que essa luz não se apagasse. Hoje, além dos meus amigos, que são minha família, espero poder dizer que tenho eu.


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