CRÍTICA: GOTHIC: Medo inexorável.
- João Paulo
- 6 de jan.
- 5 min de leitura

É ano novo. Uma tradição, um momento, uma sensação, uma ilusão, de renovação. O fim de um ciclo, o começo de outro, mas nada realmente muda. Tudo e todos continuamos seguindo nossos próprios e irremediáveis fluxos. Rumo ao fim dos fins. Por mais que tentemos controlar e mensurar o tempo com minutos, horas, dias e anos, ele segue como um único longo dia até o fim dos tempos. Diante de uma realidade assustadora e inevitável, há um fio que conecta, guia e acompanha todos nós. O medo.
“Conjurem seus mais profundos e sombrios medos. Deem ao medo forma e vida.”
Eu não poderia ter tido maior surpresa nesse começo de ano do que tive com Gothic do diretor Ken Russell. O filme de 1986 é uma experiência assombrosa e imersiva. Mergulhamos na loucura dos personagens e, no decorrer da madrugada, sonhamos acordados. Descemos em uma espiral de loucura e alucinações. Os medos se materializam e tomam espaço e forma. É uma mansão dos horrores que revela o que há de mais íntimo e perturbador nas mentes dos personagens.
Alguns dos maiores escritores da época se reúnem em uma noite de 1816 na Villa Diodati, na Suíça, para uma madrugada que entraria para a história como um marco na literatura de terror. Lord Byron, Percy e Mary Shelley, Claire Clairmont e John Polidori ficam enclausurados devido ao clima tempestuoso e, para passar a noite, aceitam o desafio provocante de escrever histórias de fantasmas.
Com o passar da noite, enquanto bebem e se divertem, começam a se deparar com verdadeiros horrores e já não conseguem distinguir imaginação da realidade. Uma vez que invocam, conjuram e materializam seus medos, se veem cada vez mais confrontados por eles e entre si. Gothic recria essa famosa noite de maneira fantasiosa, desconcertante e extremamente divertida.
Várias cenas perturbadoras que provocam desconforto me deixaram extasiado. O filme transita conosco por cada parte do casarão, com cada um dos personagens, enquanto presenciamos pesadelos, assombrações, ratos e sanguessugas. As sombras tomam conta. Árvores ganham vida, quadros penetram os sonhos e até o descer e subir de escadas refletem o caos interno.
Ken Russell adora brincar com o profano. Muitas vezes explora as partes de nós que consideramos proibidas e se diverte com elas. Provoca o espanto, o riso e uma reflexão que penetra o espectador. Muitas vezes uma faísca que vem com resistência, mas que naturalmente incita a transgressão. Encontra autenticidade naquilo que é indecoroso.
Dessa competição da madrugada, impulsionada pelo clima sombrio e pelas discussões sobre vida, morte e criação, nasceram duas obras icônicas da literatura gótica: Frankenstein, escrito por Mary Shelley e O Vampiro, escrito por Polidori, que se tornou um precursor da literatura moderna de vampiros.
O filme começa com os créditos iniciais e uma caveira que progressivamente cresce e se aproxima de quem assiste. Mais do que uma mera decisão, é uma forma direta de apresentar a história. Um presságio do que está por vir. Não há símbolo mais óbvio e ainda assim tão material e palpável como uma caveira para nos lembrarmos da nossa finitude. A caveira também tem papel fundamental na narrativa como o meio que os personagens invocam seus medos.

Se prestarmos atenção perceberemos que a morte está em todo lugar. Perceberemos que acordar é se atentar para essa única certeza. Acordar é encontrar beleza e verdadeiro propósito nesse fato. Morrer é o que dá potência à vida. Isso é mostrado no filme de diversas formas. A tempestade como símbolo de exuberância/vivacidade, mas ao mesmo tempo o prenúncio do fim. O raio como fonte de poder e anúncio do fim do mundo.
“Às vezes quando olho um rosto que antes amei só consigo ver as mudanças que a morte lhe causará um dia. Os vermes corroendo os lábios que hoje sorriem. Os matizes e sintomas da saúde transformados nos lívidos tons da putrefação.”
Outros símbolos também são explorados como o desejo metamorfoseado no corpo da mulher. O sangue como algo proibido/inacessível que provoca/revela uma ânsia por intimidade. O imoral, a vergonha e o ciúme representados na narrativa pelo amor incestuoso, o amor entre homens e a sensação de posse sobre o outro.
São expostos em Gothic o medo da perda, do desejo, de si e, substancialmente, o medo da morte. Há o horror do corpo, o terror da imaginação e o pavor de Deus. Não somente Deus como entendemos, mas nós enquanto deuses/criadores. O peso de ser, existir e, inevitavelmente, criar.
O medo é coletivo, mas profundamente íntimo. Gothic é um filme que fala de criação artística, mas a responsabilidade que vem com o criar. Com o peso que acompanha o processo de mergulharmos em nós mesmos e acolhermos todas as partes de nós. Ken Russell não zomba nem venera esses artistas, mas os coloca em pé de igualdade conosco.
Não vejo julgamento na maneira que Ken Russell filma. Não há condenação. O que vemos de maneira explícita é uma subversão do medo. Não mais algo a ser evitado, mas algo que intensifica, algo que revela e desmascara. Não o medo como algo que paralisa, mas algo estimulante. O medo, assim como a morte, como uma potência. Loucura é não abraçar a própria insanidade.

Pouco se fala sobre algo ainda mais venenoso e contra a própria vida do que o medo e a morte. O verdadeiro perigo mora no conforto. Mora na falsa ingenuidade, na falta de sinceridade e vontade de viver. É destrutivo o que podemos fazer ou deixamos de fazer em nome de um conhecido confortável. Na maioria das vezes um confortável desconfortável, mas, ainda assim, que vale mais a pena do que o risco, o novo, a traição.
Em Gothic a peça que representa essa luta interna entre moralidade e imoralidade, subordinação e transgressão, é Mary Shelley. Em contato com esses mesmos conflitos, com coisas e partes de si que ela antes evitava, ocultava, agora era possível trazer luz, esclarecimento e verdade. O caminho é o oposto. A luz vem da escuridão. Da escuridão ela conseguiu traduzir em palavras o que antes estava apenas no inconsciente. Mary transformou seus medos e traumas em uma história e encontrou sua própria forma de imortalidade.
Muitos dos que trabalharam em Gothic já morreram. Ken Russell faleceu enquanto dormia. Natasha Richardson morreu após um acidente de esqui. Julian Sands desapareceu por meses e foi encontrado morto em uma trilha de montanha. Como dito no final do filme, os escritores da noite de 1816 também tiveram seus próprios fins. Ainda assim, através da criação, através da arte, do corpo, todos lembrados.
É ano novo. Uma ilusão de controle. Me orgulho de encarar com desprezo a forma como a maioria comemora as festas de fim de ano. Ignorância minha. Sou tão hipócrita, tão patético e tão medroso quanto os outros que julgo. Gothic me toca por não ter medo de encarar a escuridão, mas principalmente por saber quando sair dela. Não se deixar paralisar pelo medo, mas transformá-lo em combustível. Afinal, essa madrugada na mansão de Byron é só uma de várias. É melhor nos acostumarmos. Ou não.
“Estamos mortos. Aquilo me mostrou a tortura que reservou para nós. Nossa criatura estará ali esperando nas sombras. Na forma de nossos medos. Até nos levar à morte.”





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