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CRÍTICA: AVATAR: O CAMINHO DA ÁGUA: A manutenção do encanto.

  • Foto do escritor: João Paulo
    João Paulo
  • 16 de dez. de 2025
  • 4 min de leitura

Enquanto escrevo ainda estou pensando se vale ou não a pena falar sobre Avatar: O Caminho da Água. Tudo que já escrevi no meu texto anterior ainda se encaixa muito bem com o que eu penso do segundo filme. Quando assisti pela primeira vez no seu lançamento, mesmo consciente de todos os problemas que se repetiram, ainda me via admirado e arrebatado pelo mundo de Pandora. Sair do cinema foi como acordar de um sonho de volta para o mundo real.


Apesar disso, quanto mais eu penso sobre, quanto mais eu revisito a obra, mais coisas entram no caminho da experiência. Me pergunto se o espetáculo vendido nessa embalagem tão vistosa ainda é uma novidade. Se ainda há o assombro e o deslumbramento do primeiro encontro ou o novo filme é apenas uma manutenção desse encantamento. 


A maior qualidade de Avatar (2009) continua sendo o que torna Caminho da Água tão ostentoso. A construção meticulosa e surpreendente de seu mundo. Como o próprio e querido Kléber Mendonça Filho diz em um breve comentário. Ele é um diretor de cinema, trabalha no meio e ainda fica pasmo, sem a menor ideia, de como fazem/executam um filme como esse. É um trabalho absurdo, ridículo e fantástico. Todas as cenas debaixo da água são de uma beleza única e rara. As grandes e pequenas criaturas também enriquecem a história reforçando a mensagem ambientalista.


A introdução da Tribo da Água é o ponto alto do novo capítulo da franquia. Ainda que não sirva para avançar muito na história, é o que efetivamente dá o novo tom e destoa essa próxima página de Avatar da anterior. O filme não tem pressa alguma nesse sentido e constrói aos poucos a rede de conexões entre as duas tribos. Isso rende várias cenas de introdução, aprendizado e introspecção. Propicia também vários conflitos que colocam à prova a convivência dos filhos dos líderes.


A conexão com a natureza de maneira espiritual segue sendo uma característica forte de Avatar. A forma como os personagens se relacionam com os animais e com o ambiente é realmente delicada e poderosa. Mais uma vez, o modo como o diretor enquadra essas relações é o que nos faz querer mergulhar cada vez mais fundo. Tudo sempre está em constante movimento. A câmera navega com fluidez e usa com frequência planos abertos. 



No meu primeiro texto não comentei sobre o elenco, mas agora gostaria de destacar as performances de Zoe Saldaña (Neytiri), Sigourney Weaver (Dra. Grace/Kiri) e Kate Winslet (Ronal). Por mais difícil que seja se expressar com o rosto transformado com efeitos especiais,  as atrizes incorporam e cabem exatamente em suas personagens com voz e presença. Todas mulheres irremediavelmente guerreiras que expressam seus sentimentos com crueza. 


Por outro lado, passado tudo isso, o grande problema do filme anterior se transforma em algo ainda maior e difícil de ignorar na sequência. James Cameron aposta na fórmula que deu certo e, apesar de introduzir novas ideias, personagens e expandir o universo de Pandora, repete tudo que já foi feito anteriormente. Todo o trajeto que leva até o clímax segue os mesmos padrões. São os mesmos conflitos com uma roupagem diferente. 


Avatar não parece repetir modelos por falta de ideias, mas por escolha. Não é uma falha criativa, mas uma estratégia de permanência. Uma forma de se manter dentro de seus próprios limites. O filme não busca só surpreender, mas reter. Reter o espectador, o mercado, o universo e a franquia. Lançado 13 anos depois do primeiro filme, Caminho da Água parece mais um lembrete de que Pandora ainda existe do que algo que realmente move a narrativa para frente. Não abre portas, mas reforça paredes.


Minha queixa de histórias confortáveis demais tem sido recorrente. O cinema está em crise e está com medo. Se arriscar virou sinônimo de perder dinheiro. Ser autêntico é muito caro. É um reflexo do momento que vivemos e de como nos comportamos como sociedade, mas também é o espelho de algo muito individual. 


Em outro momento da minha vida, com outras vivências, histórias como essa ainda conversariam comigo. Ainda seriam suficientes. Teriam espaço e sentido. Hoje meu corpo e a minha forma de enxergar e sentir as coisas são diferentes. Eu preciso de filmes que mergulham mais fundo. Que não tenham medo de tocar em feridas, sujar as mãos e expor as partes feias, más e controversas de mim. 


Insisto que não há certo e errado/bom e ruim no cinema. Não há uma verdade absoluta. Filmes são espelhos de nós. Não objetos imutáveis. Nossa impressão sobre eles muda constantemente diante de nossos olhos e do tempo. É por ver tanto potencial, qualidade e esforço em Caminho da Água que digo que espero mais transparência e honestidade. Às vezes o que precisamos mesmo como espectadores é de um bom soco no estômago.


Só o tempo dirá quanta atenção Avatar consegue prender apenas com o espetáculo. Por quanto tempo seremos mantidos submersos antes que precisemos emergir novamente. Há um desgaste cada vez mais evidente com o passar do tempo. Cabe ao terceiro filme mostrar realmente o quanto disso tudo ainda se mantém ou se ainda há espaço para o risco e o novo. A pedra que incomodava no sapato agora já faz parte do caminhar.



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