CRÍTICA: AVATAR: A “pedra no sapato” de Avatar.
- João Paulo
- 15 de dez. de 2025
- 5 min de leitura

O quanto podemos/devemos nos desvencilhar de certas nuances/realidades a fim de aproveitar um filme completamente? É a pergunta que não sai da minha cabeça. O quanto isso é justo conosco e com a obra? Diversas vezes me vejo assistindo histórias que transbordam boas intenções cuja forma, simples ou grandiosa, impressiona e engrandece o que poderia ser somente algo comum e direto. O corpo é atraente, mais do que atraente, é revolucionário, um absurdo, mas e as entranhas? A essência? O caráter? Encarando as coisas dessa forma podemos começar a entender um pouco a “pedra no sapato” de Avatar do diretor James Cameron.
Um filme com um orçamento de 200 milhões de dólares e uma arrecadação de 3 bilhões, independente de qualquer coisa, deu e continuará dando certo. Falar sobre seu impacto, sua influência e seu tamanho é “chover no molhado”. Muito já foi dito e continuará sendo dito. Não há porquê poupar palavras. Elas não são suficientes. Avatar é um dos maiores fenômenos do cinema de todos os tempos. Após quase vinte anos do seu primeiro lançamento, o filme continua tão estonteante e extraordinário quanto naquela época.
O épico de James Cameron é de tirar o fôlego. Sua direção irrepreensível nos transporta para Pandora de uma maneira que poucos diretores conseguem. Ele filma como quem sempre está diante de algo epopeico. Sua imagem nos engole completamente. Essa é uma de suas maiores qualidades e é o que torna Avatar um evento monumental. Toda a construção do universo é rica aos extremos. Cuidadosamente minuciosa e barbaramente expansiva. Da terra aos céus. As cores são inesquecíveis. A tecnologia empreendida para tornar tudo isso possível ainda é, para muitos de nós, algo que desperta fascínio e profundo interesse.
Desde Titanic, Aliens e O Exterminador do Futuro a ambição de Cameron proporciona experiências cinematográficas que vão além do ordinário. Longe de qualquer praticidade, o diretor faz uso do tempo e orçamento necessários para concretizar seus filmes. O resultado vemos materializado na tela. Tudo isso é inegável. São exemplos de um cinema escapista que aposta com tudo no espetáculo. O produto é o espetáculo. A experiência.
Com todas as ferramentas disponíveis, Avatar é colocado no mundo. Uma vez no mundo, do mundo, o filme é testado. Não só precisa retornar o dinheiro investido, mais do que isso, gerar uma quantidade absurda de lucro, como é o momento que, confrontado com a realidade, com nosso tempo, com todas as nossas coerências e incoerências, descobrimos o quanto desse espetáculo se sustenta. Não somente porque buscamos uma justificativa, um propósito/sentido, mas coerência e honestidade.
No ano de 2154, Jake Sully, um fuzileiro naval paraplégico perde o irmão gêmeo e toma seu lugar em uma missão para a lua Pandora. Seu propósito é conhecer e estudar a espécie alienígena que vive lá, os Na'vi. Logo se vê dividido entre conviver cada vez mais com o povo ou servir apenas como uma forma de obter informações privilegiadas para os humanos que desejam explorar aquela área.
É uma narrativa bem familiar. Filmes como Pocahontas e Dança com Lobos exploram o choque entre culturas, a colonização como tema central e uma forte mensagem ecológica de respeito à natureza. Tópicos universais e, quando bem trabalhados, inesgotáveis. Mas o quanto cabe em um filme como Avatar? O quão acessível a história precisa ser sem que isso comprometa sua complexidade? Temo que a resposta seja que uma obra dessa dimensão não suporte tanta profundidade. O que é permitido e favorável para seu desempenho é uma abordagem muitas vezes simplista/maniqueísta.

Sinto que Avatar cede no roteiro e arquétipos por conta de uma própria lógica industrial que cerca a franquia. Um filme que tem tanto e precisa de tanto, em vários sentidos, acaba por não conseguir criar algo mais autoral e autêntico sem estreitar-se. Mais complexidade é menos público. Menos público é menos dinheiro. Menos dinheiro não é uma opção. Dessa maneira um filme que em um primeiro momento se revela tão moderno e avançado, na verdade é bastante restrito/sintetizado.
A abordagem maniqueísta me incomoda profundamente porque ela empobrece o debate e conforta demais o espectador. As cores marcantes não estão apenas na imagem. Tudo é colorido, desenhado e orquestrado de tal maneira que tudo fique o mais mastigado e compreensível para o espectador. Nos sentimos do lado “certo” da história sem muito risco.
Como em um brinquedo de um parque de diversões, o filme guia com cuidado e entusiasmo quem o assiste. É divertido, brilha aos olhos, quase esquecemos do mundo fora do cinema, mas assim que os créditos sobem, as cortinas caem, o que realmente fica conosco? O quanto nos deixamos influenciar pela mensagem que Avatar carrega? O quanto ela repercute nas pessoas e no mundo? É a tecnologia 3D ou a mensagem inspiradora?
Quando pergunto o quanto devemos nos desvencilhar de certas realidades também me questiono se Avatar pede esse desligamento ou o impõe. Assistir ao filme exige uma suspensão crítica ou ela acontece quase automaticamente, embalados pelo espetáculo? É tudo tão magnífico e incomparável. Como exigir mais do que isso? É justo? É importante discutirmos tudo isso.

Talvez a pergunta mais delicada a se fazer seja se o verdadeiro problema é se Avatar não vai fundo o suficiente ou se ele simula profundidade enquanto permanece seguro. Eu não acredito que ele simule alguma coisa além do que ele realmente é. Ele se assume como é. Um filme espetáculo. Por isso que, ainda que a experiência como um todo tenha esse gostinho amargo no final, eu não consigo não aproveitar e não continuar me impressionando.
Há tantas problemáticas que podem ser discutidas. Que propriedade uma empresa multibilionária tem para falar sobre ambientalismo? Como engolir uma história anti-imperialista de uma companhia e um país imperialista? Como encontrar sentido de um filme que vende isso, lucra com esse discurso e ao invés de incentivar uma verdadeira mobilização só mantém a roda girando? Ainda sobram as incoerências dentro da própria história. O homem branco que carrega o protagonismo e guia o povo que sofre para a liberdade. Muitos blockbusters podem cair nesse redemoinho.
Cada um terá uma experiência única e subjetiva com a obra. Para cada pessoa existe o que funciona e o que não funciona. Existe o que engrandece e o que diminui a história. Cabe a cada um e a experiência de cada um o que absorver e o que abstrair. Por mais hipócrita ou incoerente, como alguém que ama cinema e tudo que o envolve, eu gosto de Avatar. Mais uma vez, ele representa uma revolução no que significa idealizar e fazer cinema. Mas a que preço? Não faltam exemplos de artistas que com pouco fizeram muito.
Eu torço que a franquia supere esse obstáculo e encontre um equilíbrio entre forma e conteúdo. Que movimente a indústria para melhor. Que seja um incentivo para grandes e pequenos artistas do que somos capazes de construir. Não mais uma forma de sufocar e dominar mercados. Tal como os humanos se comportam com os Na’vi. Que todo esse encanto, que essa verdadeira transformação na forma de fazer cinema, não seja em vão.





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