CRÍTICA: APOCALIPSE NOS TRÓPICOS: A Máscara do Bem, o Rosto do Mal
- João Paulo
- 9 de jul.
- 7 min de leitura

Nos primeiros dez minutos de Apocalipse nos Trópicos, eu já queria vomitar. Eu sentia meus olhos enchendo d’água. Quem dera fossem lágrimas de felicidade, até mesmo tristeza, mas eram de ódio. Revolta. Raiva. Repulsa. Aversão. Descrença. Impotência.
Passados esses dez minutos e alguns quebrados, o filme realmente começa e já me vem uma sensação de cansaço e inquietação. Penso comigo mesmo: Caramba. Será que eu vou aguentar ver isso até o final sem querer vomitar? Sem querer arrancar os meus próprios olhos e ouvidos? Nada do que é mostrado no documentário é novidade pra mim. Mesmo vivendo tudo isso de perto, acompanhando todo esse processo, dentro e fora de casa, é doloroso testemunhar o tempo fazendo o seu trabalho. Um trabalho que suaviza as dores e manipula nossas memórias.
Ter oportunidades como essa dentro de uma sala de cinema escura, onde é só você e a tela, você se vê, mais uma vez, confrontado com uma realidade crua demais, violenta demais e visceral. Uma realidade à qual estamos acostumados demais do lado de fora do cinema. Acostumados o suficiente para nos habituarmos, nos adaptarmos, esquecermos. Por incrível que pareça, é dentro do cinema que lembramos dela. Costumamos ir ao cinema para escapar, para nos entretermos, para fugirmos, mas aqui é o contrário. Nós entramos no cinema para nos lembrarmos. Nós entramos no cinema para não esquecer.
Confesso que foi uma experiência muito difícil — e hilária em alguns momentos. É mais difícil de assistir do que Democracia em Vertigem, com certeza. Particularmente por se tratar de algo que mexe com uma ferida, uma vivência, uma história muito profunda minha. A partir da minha própria experiência dentro da igreja desde a adolescência, com o passar dos anos venho tentando compreender como a religião se transforma em fanatismo e, por fim, em teocracia. A religião como forma de controle, manipulação e poder.
Petra Costa deixa isso muito claro falando sobre coisas como o Mandato dos Sete Montes. Uma visão que propõe que existem sete áreas principais da sociedade que os cristãos devem influenciar para transformar culturalmente o mundo e preparar a volta de Jesus Cristo: a família, a religião, a educação, a mídia, a cultura, a economia e o governo. Se isso por si só já não é assustador o suficiente… é a Teologia do Domínio.
Toda a sequência que relembra a tragédia que foi a pandemia do Coronavírus é outro momento que não consegui conter as lágrimas. Nós vivemos tudo aquilo. Todos os dias por anos. Hoje parece algo tão distante. Algumas feridas merecem ser reabertas, vasculhadas e relembradas para que os erros do passado não se repitam no futuro. Foram tantas mortes, tanta negligência. Que estrago.
Silas Malafaia é o protagonista de Apocalipse nos Trópicos. Ele recebe Petra e sua equipe em sua mansão e permite que ela construa seu material a partir dele mesmo com todas as suas divergências. Algo que me assusta — e não deixa de me impressionar — é como Malafaia é absurdamente verdadeiro consigo mesmo. Talvez mais verdadeiro, mais autêntico, do que o próprio Lula.
Malafaia não esconde suas verdadeiras intenções. Não o vejo poupando palavras, omitindo o que realmente pensa e acredita. Lula, por outro lado, está sempre se adaptando. Sempre exercendo sua maleabilidade para se adequar ao hoje, à situação atual. Malafaia não. Não lembro de já ter visto o pastor arredar o pé alguma vez de quem ele é e do que ele acredita. Não posso dizer o mesmo do Lula.

Não digo isso pra elogiar o primeiro ou condenar o segundo, mas pra mostrar como a política e a religião viraram um teatro de máscaras. Apocalipse nos Trópicos escancara o jogo de performar autenticidade e o risco de perder a própria cara no processo.
O protagonismo de Malafaia no documentário não é periférico. É um dos eixos narrativos centrais. A diretora não o trata como uma figura caricata — ainda que ele se esforce muito para ser uma — nem o isola como inimigo puro e simplesmente. Ela o encara de frente, mas com escuta. E o mais impactante: ele aceita ser escutado. Ele permite que ela entre, literalmente, na casa dele, no cotidiano dele, na narrativa dele. Isso, por si só, já diz muito.
Num mundo onde o embate costuma ser feito por caricatura, gritaria e ignorância, é inquietante ver um personagem como ele sendo mostrado com tempo de tela, com complexidade. E mais inquietante ainda perceber como ele mesmo sabe disso. Enquanto assistia Apocalipse nos Trópicos, me perguntava: Como ele autorizou isso? Como ele permitiu que ela entrasse em sua casa?
Malafaia usa o documentário como vitrine, e não tem medo da exposição porque acredita fielmente na própria verdade com uma força quase religiosa. Ele não teme ser mal interpretado, porque pra ele não há o que interpretar: ele é quem é. Essa entrega dele às câmeras, esse “sim, pode entrar, Petra”, é performático, claro, mas também é um ato de confiança, vaidade e estratégia.
E aí encontramos o contraste gritante com outras figuras políticas como o próprio Lula. Lula escorrega, adapta, negocia. Malafaia finca o pé na terra. Apocalipse nos Trópicos não é só uma denúncia, mas um retrato que inclui, com desconforto, a complexidade de quem está do outro lado da trincheira.
Enquanto o pastor Malafaia se coloca com clareza brutal, dizendo o que pensa, expondo suas crenças sem filtros, sem rodeios, sem se importar se vai soar arrogante, violento ou fundamentalista, o Lula sempre está negociando a própria imagem. Há um cálculo em cada palavra. Uma hesitação. Uma tentativa de agradar múltiplos públicos ao mesmo tempo e, nesse malabarismo, acaba se apagando. Soa vago. Escorregadio.
E aí a coisa pega de verdade: por mais que Malafaia diga absurdos, você sabe exatamente quem ele é, onde ele está. Isso, dentro de um documentário que trata justamente de posicionamento, disputa de narrativa, construção de poder, traz um contraste gritante e inquietante. Nesse sentido, Petra foca nessa diferença sem precisar forçar ou induzir nada. Ela só escuta e mostra os fatos como são. Deixa que as figuras falem por si.
E é aí, como sempre, que o Malafaia ganha um protagonismo assombroso: ele é um personagem muito mais cinematográfico que Lula nesse filme. Ele tem uma clareza narrativa, mesmo que assustadora. Malafaia sabe construir a própria mitologia.
Quando Lula diz, em uma das cenas chave do filme, que, nas suas próprias palavras, “essa ideia de banheiro unissex é coisa de Satanás”, eu olho pra mim e me sinto um otário. Penso em mim e em todas as pessoas da comunidade trans profundamente ofendidas e apagadas por um comentário como esse. É um verdadeiro soco no estômago. Não só pelo conteúdo, mas pelo o que representa em termos de concessão, de cálculo político.
Lula não está apenas apelando para uma base conservadora, ele está reforçando um discurso que marginaliza, violenta e apaga corpos trans que vivem fora da normatividade. É um momento em que ele abdica de qualquer compromisso com uma pauta progressista em nome de votos. E isso pra mim é uma traição. É um traidor.
Malafaia fala muito sobre isso também. Um líder que já foi símbolo de esperança pra tanta gente, nesse momento, vira um eco do mesmo fanatismo que diz combater. Como Petra diz excelentemente bem, Lula se aproxima dos evangélicos da mesma maneira que se aproximou dos banqueiros vinte anos atrás para conseguir se eleger.
Apocalipse nos Trópicos mostra isso com uma frieza inquietante: sem julgamento direto. Fica impossível não sentir a quebra de expectativa. Uma vitória nas eleições de 2022, à princípio um momento de alegria, com um sabor amargo. É como se Lula, diante do poder esmagador da máquina evangélica, decidisse se adaptar ao inimigo para continuar jogando o jogo.

Isso vem com um preço altíssimo. Quem paga essa conta é justamente quem ele deveria proteger. Sua vitória nas eleições, que poderia ser um alívio, a derrota de um projeto autoritário, fascista e violento, vira um espelho ainda mais perturbador.
No momento em que a vitória é conquistada às custas de concessões ideológicas profundas, percebemos que o problema não era só o Bolsonaro. Ele era o sintoma mais escancarado. A doença está mais intrínseca do que gostaríamos de admitir.
O que deveria ser um triunfo contra o bolsonarismo revela uma vitória sem glória. Uma que nos obriga a olhar pro fundo da nossa própria ambiguidade moral como país. Vencemos, mas a que custo? Negociando com o conservadorismo mais perverso, normalizando discursos que deveriam nos envergonhar?
Sim, a democracia sobreviveu, mas numa versão exausta, fraturada e envergonhada de si mesma. Talvez esteja aí um dos maiores êxitos do documentário: mostrar que o apocalipse não é só aquilo que destrói de fora pra dentro, mas que nos obriga a encarar o que já está apodrecido por dentro.
Eu amo filmes de horror. Sou um amante assíduo do cinema de horror. Amo me assustar, amo a criatividade, a ousadia, as tripas, o sangue, tudo. Nada disso, por mais explícito que seja, chega perto de estar dentro de uma sala de cinema e assistir uma história que não é ficção, que não é entretenimento. É pior do que entretenimento. É um grito de socorro. Um lamento pelo passado, pelo presente. Um presságio.
Petra diz que em grego a palavra apocalipse quer dizer desvelar, revelar aos olhos. É possível mudar esse cenário? Como ela mesma diz, a democracia é uma coisa tão frágil, tão generosa. A ideia de conviver com um inimigo. Por isso, uma ideia tão difícil de gerar raízes, fincar no solo.
No dia que assisti o filme, conversando com minha psicóloga, a perguntei sobre isso. “Considerando que não temos o poder de mudar ninguém, que não temos o poder de gerar uma reflexão em ninguém, o que fazemos? Como convivemos uns com os outros? Como?” E continuo. “Acho que esse seja o maior problema que enfrentamos enquanto humanidade. Não conseguimos mudar o outro e, ainda assim, estamos sempre, continuamente, tentando mudar o outro.”
Falo com ela sobre um vídeo que vi na internet recentemente. Um homem gay frequentava uma parada LGBT+ nos Estados Unidos quando é abordado por um outro homem conservador e fanático religioso. Esse mesmo homem dizendo para ele como ele iria para o inferno, como ser gay é um pecado.
O homem gay aguentando calado até dizer: “Qual seu sabor de pizza favorito?” O religioso se assusta com a pergunta. Ele pergunta novamente. “Qual seu sabor de pizza favorito?” Ele responde: “Pizza de bacon.” O outro continua: “Bacon? Sério? Eu nunca comi pizza de bacon. Como é?”
E disso os dois começam um diálogo e o foco da conversa muda completamente. Um assunto bobo como esse, um tópico que ambos tinham em comum, uma semelhança entre os dois, foi o suficiente para reconhecerem um no outro um igual, uma ponte, não um muro.
Talvez seja isso que precisamos buscar hoje em dia. Pararmos de ficar tentando mudar o outro, recrutar o outro para nossa igreja, para nosso partido. Conviver mais, tentar mudar menos. Talvez assim evitemos os próximos apocalipses. Talvez assim traremos novos apocalipses.
Se for para destruir, que seja para transformar, trazer algo novo, algo melhor. Abraçar o fato que a vida está sempre transformando, mudando, em movimento. Que seja pra frente, não pra trás.
No mesmo dia, fui assistir M3GAN 2.0, que terminou com uma frase que se encaixou como uma luva nesse contexto:
Talvez a coisa mais revolucionária que podemos fazer como seres humanos, é mudar de ideia.





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