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CRÍTICA: DEPOIS DA CAÇADA: Melhor o diabo que você conhece?

  • Foto do escritor: João Paulo
    João Paulo
  • 3 de dez. de 2025
  • 5 min de leitura

Minha psicóloga me disse uma vez que nossas tripas, nosso sistema digestivo, são como nosso segundo cérebro. Sentimos tudo com muita intensidade nessa região do corpo. Elas se manifestam quando estamos ansiosos, angustiados, apreensivos e apaixonados. Cabe um mundo inteiro de sensações na nossa barriga. 


Sentimos e somos de dentro pra fora. Assistir Depois da Caçada me levou direto para essa memória. Se contemos o que está no interior, se não permitimos que o que está dentro saia naturalmente, uma hora o corpo se manifestará e aquilo sairá de nós por bem ou por mal. 


Pode-se dizer muito sobre o filme de Luca Guadagnino. Há muito para dissecar de seu corpo. É possível explorar com profundidade muitos dos temas que a história aborda como o mundo das aparências, o moralismo hipócrita, relações de poder,  mas, principalmente, o que grita e conduz o filme até seu “controverso” clímax vem do arco da personagem principal, Alma, interpretada pela Julia Roberts. A negação constante do “eu” e tudo que o envolve. 


“Sinto que, no fundo, sempre esperei por isso. Eu esperava que minha podridão fosse vista pelos outros antes que eu pudesse expurgá-la.”


A performance vale tudo. Vivemos numa sociedade construída de aparências. O que mostramos, o que apresentamos para o outro, é o que realmente importa. Mais do que vivendo através de máscaras e disfarces para quem é “outro”, escondemos partes de quem somos de nós mesmos. A reputação e a carreira de Alma são o que mais importam para ela. 


Omitimos e negamos tudo em nós que consideramos “outro”. Tudo que é visto como diferente, mau, incoerente, todo desejo e impulso considerado imoral e reprovável. Colocamos tudo debaixo de panos e negamos sua existência. Rejeitamos ativamente parte de quem somos. Alma esconde uma grande parte de quem ela é. Confunde isso com “privacidade”.


É de uma crueldade e ignorância imensuráveis não reconhecermos as partes “ruins” de nós. Como Alma diz para Maggie: “Nem tudo deve ser confortável o tempo todo”. A vida não é um mar de rosas de pessoas moralmente perfeitas dos pés à cabeça. Buscar maturidade emocional é olhar para si e reconhecer em você, não no outro, aquilo que é “abominável”. 


Apesar dos vários obstáculos que surgem durante o filme, o verdadeiro confronto de Alma é com ela mesma. Não apenas ela como todos em Depois da Caçada, em certa medida, passam pela mesma dificuldade de não aceitar em si o que é “condenável”. 


O filme explora as várias camadas dos personagens. Através da política de hoje, com uma presença maior de debates que discutem os privilégios do típico homem branco hétero, que falam sobre assédio sexual e desigualdades sociais, Depois da Caçada explora de maneira amarga as incoerências dessas mesmas pessoas que se dizem ‘desconstruídas’. 



O filme toca em feridas da esquerda política. Em grande parte, nosso medo de encararmos o fato que podemos, conseguimos, ser tão intolerantes, mesquinhos e arrogantes quanto qualquer outra pessoa que julgamos odiável. A personagem Maggie interpretada por Ayo Edebiri é uma representação clara disso. Uma filha de pais bilionários que tenta acobertar isso da maneira que consegue para construir uma imagem de si. Até onde vai o discurso?


Tudo volta para a busca por poder e do que é relevante naquele momento. É algo inerentemente humano. A busca por controle, por uma verdade absoluta. Isso se reflete em Depois da Caçada com os personagens constantemente tentando se provar dominantes das situações impostas. 


O conceito de moralidade é tão maleável quanto a própria vida. Nos vestimos, nos enchemos de ideais, valores e crenças políticas, mas no dia a dia o nosso instinto animal urge. Incorporamos um jogo de cadeiras de presa e predador. Estamos dispostos a abdicar disso tudo para provarmos um ponto, para estarmos por cima. Algo evidente no conflito entre Alma e Maggie. 


Depois da Caçada se passa em 2019 quando o movimento Me Too ainda estava em alta. Luca Guadagnino traz essa realidade para a tela com sinceridade e crueza. O filme recebeu, inclusive, críticas de que a obra estaria ‘minando’ e ‘descredibilizando’ o movimento feminista. 


Em uma coletiva de imprensa, questionada sobre o assunto, Julia Roberts respondeu: “A melhor parte [...] é que vocês saíram do cinema discutindo sobre isso. Era exatamente essa a sensação que queríamos provocar. Você entende no que acredita com mais clareza quando mexemos com suas convicções. Então… de nada”. Lamentou também que a sociedade esteja “perdendo a arte da conversa e da humanidade atualmente”.


“Você acha que reconhecer a diferença, nomeá-la, é errado. Então, o que é correto? O que faria você feliz? Deveríamos construir uma sociedade de acordo com seus parâmetros? Eu deveria construir um mundo, para você, com todas as arestas aparadas? Acolchoar suas celas com gentileza e avisos de gatilho?”

Sempre enfatizo como a arte, os filmes, devem ser um lugar aberto e amoral, livre de moral, para trabalharmos, colocarmos em cheque, elementos, tópicos, comportamentos, que nos causam medo e desconforto. 


Cada personagem é uma oportunidade para explorar através de posturas e diálogos suas próprias complexidades independente de “certo” ou “errado”. Uma vez que passamos desse ponto a nossa própria forma de assistir filmes e compreender o comportamento humano muda. 


Há uma cena do filme entre as personagens Kim (Chloë Sevigny) e Alma que ilustra isso de maneira cômica e inteligente. Kim expõe durante um desabafo sincero o que pensa sobre os jovens de hoje e a maneira como lidam com frustrações, injustiças e dor. Como os jovens de hoje em dia, na primeira injustiça, tiram disso suas personalidades.  Um desabafo questionável, claro, mas completamente verdadeiro com quem ela é, com o que ela sente naquele momento. 


Sem disfarces, sem rodeios, sem medir as palavras. Se uma conversa como essa fosse parar no X (Twitter) provavelmente ela seria cancelada pelo tribunal das redes sociais. Já Alma parece se ver acima disso. Quando Kim começa a ver por baixo da máscara de Alma, leva um insulto. Quando Alma escapa de si, quando o impulso toma conta, ela recua, mas gradualmente seu estômago a lembra daquilo que precisa e vai sair.


A direção de Guadagnino passa para a tela muito bem a sensação de desconforto, estranheza e conflito de interesses através da câmera, dos sons e das performances ásperas do elenco. O desenrolar da narrativa pode parecer longo, mas o diretor aposta na gradualidade para construir e costurar todos os atritos. 



Um destaque para o ator Michael Stuhlbarg como marido de Alma, Frederik, que é uma figura essencial e afiada. Por trás do verdadeiro conflito, a boa escrita, performance e direção tornam esse personagem o fio que guia a história. 


Depois da Caçada mais do que um filme sobre as consequências de uma acusação de assédio sexual, mais do que uma tentativa de descobrir o que é verdadeiro ou falso, certo ou errado, é uma história que coloca na mesa o processo árduo e violento que é dar espaço às tripas. Tentamos segurar, mas o corpo vomita e nos machuca se precisar. 


Não temos nenhum momento de completa clareza mesmo depois dos créditos rolarem. O filme termina com um “Corta!” inesperado do diretor que nos coloca mais uma vez na realidade. Uma provocação brilhante que instiga o espectador a digerir por conta própria. 


Existe uma expressão que diz: Melhor o diabo que você conhece do que o diabo que você não conhece. De um jeito ou de outro, um dos dois vai aparecer pra nos assombrar. O medo do desconhecido, o pavor do risco, nos faz querer ficar com aquele que conhecemos. Desconfortável, mas “seguro”. Por outro lado, é impossível passar por essa vida, ser plenamente, alcançar sua própria inteireza, sem ter conhecido os dois. 


Por quanto tempo, até quando, conseguimos esconder/fugir de quem somos? Do que fizemos? Do outro? Do que desejamos e acreditamos? O filme não deixa claro se as personagens Alma e Maggie conseguem o que queriam, se conseguem superar o que enfrentavam, se alcançam o grau de ascendência que almejavam, mas ambas lidam com as duras consequências de não assumirem todas as partes de si. Sem espaço para o “eu”, não há espaço para o corpo. 


“Eu quis a ilusão. Agora a dor sou eu.”


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